Do Outro Lado do Balcão

abril 28, 2008

A Mãe da Noiva.

Filed under: Protesto!,Sei lá! — O Balconista: @ 09:54

Dez da manhã. Dia claro e sem nuvens. A previsão do tempo anunciava uma chuva que nunca veio. Toca o telefone:

 

– Bom dia! – diz ela.

– Bom dia. – diz ele numa voz gutural e pouco amistosa.

 

Talvez ele tivesse pensado: “Bom dia pra quem, cara pálida?!”, mas resolveu que não seria apropriada a abordagem. Quem sabe ele tivesse pensado em margaridas e crisântemos quando ouviu a voz alegre ao telefone, ainda que fossem oito e meia da madrugada daquele sábado. Ela tinha dessas coisas.

 

Levantou, resignado com a vida e decidiu que um banho quente seria a melhor coisa a fazer.

 

Depois do vidro embaçado e de uma tentativa vã de pentear os cabelos, vestiu a calça e, no momento em que a abotoava, a porta do quarto se abriu e ela entrou, interrompendo o mau humor que o dominava com uma seqüência indiscutível de beijos matinais.

 

– Meu amor! Tenho uma coisa importantíssima para te dizer. Se, por algum acaso, ou nalgum dia você vier a encontrar com a minha mãe, ou for a ela apresentado, jamais, eu disse jamais, diga a ela que nós nos conhecemos na Internet e que você mora em outra cidade… Ela odeia “esse tipo de gente”. Ela acha que são todos uns aproveitadores e pervertidos sexuais. Tudo isso depois que as minhas tias mostraram para elas aquelas reportagens sensacionalistas do “Aqui Agora!”…

 

O dia parecia promissor, mas, Murphy sempre cobra seu tributo dos incautos. O telefone celular toca e o ogro irritado escuta a metade do diálogo:

 

– Alô?… Hein?… Como assim ninguém foi na festa da prima?… Hein?? E agora eu é que tenho de resolver o problema? Fala séeeerio…. Vocês vão para a Novena de Santa Clara do Passa Quatro, e eu é que tenho de ir para o abatedouro?!! Tenha dó, né?

 

Ele arqueia a sobrancelha, desconfiado. Aquela introdução não soava nada animadora.

 

– Hum… Sei, mãe… Claro que sim… Eu não estou brigando com a senhora… Mãe…. Não Mãe, eu não estou reclamando porque a senhora foi para a Novena…. Não, Mãe, não me rogue praga… eu também sou devota de Santa Clara do Passa Quatro, mas ontem eu queria encontrar com o meu namorado…Tá… eu vou lá então. Compro o presente e vou lá.

 

“Droga”, pensou ela. “E agora, como eu convenço a fera?”

 

– Amorziiiiiinhooo… – O silêncio paira sobre o quarto, como naqueles momentos em que a presa pressente a proximidade do caçador, aguardando somente ouvir o tiro fatal…

 

– Beeeeenhêeeee…. vamos ao shopping comigo? Tenho de comprar um presente que a mamãe pediu…

 

– Claro que sim, meu amor! – ele repete a frase cunhada pra livrá-lo de maiores discussões.

 

Shopping. Sábado pela manhã. Poupá-los-ei da descrição do inferno. Dante o fez com mais propriedade do que eu conseguiria fazer.

 

Presente comprado, mas sem não antes colocá-lo numa sinuca de bico, daquelas parecidas com perguntas feitas às quatro da manhã ao retornarem de uma festa: “Quem era aquela loura xexelenta que não tirava o olho de você?” E você responde como se não soubesse: “Loura? Que loura?” E torce para tudo terminar ali…

 

Depois do shopping ele imaginou que merecesse um banquete e logo depois, se refestelar com a presença daquela que lhe iluminara o dia. Ledo engano. Hora de pagar o tributo a Murphy.

 

– Beeeenhêeee… nós vamos lá na casa da fulaninha entregar o presente e tomar uma bronca porque nós não fomos na festa, viu?

 

A vontade dele era de gritar com ela. Mas, como argumentar quando ela vinha para o lado dele com aquele sorriso irritante?

 

O orgulho devidamente resguardado, rabo entre as pernas, língua para fora e lá se foi ele, caminhando ao lado de sua dona para onde quer que ela fosse.

 

Terminada a tarefa, ele pensou, seria recompensado. Mais uma vez ele estava enganado. O pior ainda estava por vir.

 

– Tem mais uma visitinha que devemos fazer… Vira aqui, ó… Isso… é nesta casa… Vou te apresentar alguém muito importante para mim…

 

“Isso não vai dar certo…” ele pensou, mas resolveu que também não seria prudente fazer este comentário. Desligou o rádio do carro, a tempo ainda de ouvir o último boletim do tempo: “Atenção, senhoras e senhores, a previsão para as próximas horas é de chuva grossa, ventos fortes, raios e trovoadas por toda a região metropolitana de …”

 

– Tá certo… – ele resmungou, como se o dia pudesse ficar pior.

 

– Benzinho, vem cá que eu quero te apresentar alguém…

 

– …

 

– Essa aqui é a mamãe…

 

– …

 

– Mamãe, esse aqui é o meu namorado da internet e que mora em Brasília…

 

– …

 

– Nossa, filha, que mão gelada que ele tem… ele está bem???

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1 Comentário »

  1. Ainda bem que eu carrego um desfibrilador na bolsa, né, babe?

    Comentário por Lívia — abril 28, 2008 @ 10:26 | Responder


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